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Sobre a Epidemia da Idiopatia na Medicina Oficial

Eduardo Almeida, MD, PhD

  

“É notável a serenidade com que a sociedade aceita que os médicos se refugiem na informação estereotipada, e indulgente, de que, afinal de contas, se desconhece a causa desta ou daquela enfermidade. E também é notável os médicos não terem o menor escrúpulo em agir assim... Pois o mecanismo da gênese das doenças, principalmente das crônicas, é conhecido há uns  cem anos, e há muito deveria ter sido aceito pela ciência médica”

H-G Eberhardt, MD

“É a teoria que define o que pode ser observado”

Albert Einstein (1879-1955)

“Deixemos morrer as teorias ao invés dos humanos”

                                                         Karl Popper 

"Aquele que aborda um sistema complexo, aberto e não linear, como se fosse um sistema fechado e linear não pode reivindicar ser científico"


Quando o médico diz ser determinada doença idiopática, ele quer dizer que não se sabe a causa da mesma. Na mente do médico, esse termo seria transitório, pois em breve, graças às ciências, tal doença deixará de ser idiopática. Comunga da ideologia do progresso científico. Isso explica, em grande medida, porque os médicos não sentem desconforto ou traço de vergonha algum, em confessar para o seu cliente, que eles não sabem a causa da doença que o acomete.

O médico não percebe ser a idiopatia um sinal claro do déficit cognitivo do sistema de pensamento da medicina oficial. Ao invés de acender a luz vermelha para a medicina oficial, a idiopatia passou a ser quase um diagnóstico. A idiopatia seria, para o médico, um rótulo provisório a ser substituído pelo rótulo causal verdadeiro. No entanto, o tempo passa e as causas dos adoecimentos não aparecem.

O usuário não reage a esse rótulo precário, pois a cultura médica dos usuários segue a cultura médica oficial. Portanto, não existe conflito, o caminho está livre para a medicina oficial dizer, sem constrangimentos, que desconhece a causa ou as causas da grande maioria das doenças, que diz tratar "cientificamente".

Atualmente, quase 80% das doenças são chamadas de idiopáticas. A hipertensão arterial, por exemplo, acomete cerca de 25% da população e o diagnóstico médico a chama de hipertensão arterial essencial (essencial aqui quer dizer idiopática).

Ora, se usarmos apenas a lógica dedutiva, deveríamos nos perguntar: como é possível tratar e curar certo adoecimento se não se sabe a causa/causas? Ou de outro modo, como se trata uma doença se não se sabe a causa/causas?

O pensamento crítico na medicina, ao contrário, não aceita essa tergiversação. Considera ser a classificação de idiopatia a expressão de um bloqueio cognitivo - a área de sombra cognitiva da medicina oficial. E considera que o conhecimento necessário para esclarecer as doenças ditas idiopáticas, já existe há quase cem anos.

A abordagem da idiopatia nos oferece pistas importantes para entendermos a natureza e os limites da doutrina médica oficial. Pois esse termo esconde a incapacidade do pensamento médico oficial explicar grande parte do adoecimento humano atual.

Domina o estilo de pensamento da medicina oficial a teoria do germe de Pasteur, Koch e Ehrlich. Esse pensamento nasceu desafiado pelas doenças bacterianas agudas, é oriundo das ciências clássicas mecanicistas, e aplicou ao organismo o modelo linear pré determinista de ação-reação imediatas, próprio dos sistemas lineares e fechados.

Do modelo de sistema linear e fechado da física newtoniana, o pensamento médico se apropriou, sobretudo, das noções de localismo e determinismo causal. A concepção de causa próxima, na medicina, resultou da adaptação do conceito de localidade da física de Newton – o objeto só é influenciado pela ação local direta. O conceito de causa próxima da medicina mecanicista, diz que a causa da lesão (objeto) está próxima à lesão, mais especificamente na própria lesão, e não contempla a causa distante.       

A física determinística admite ser possível prever o futuro, se soubermos as condições iniciais do sistema. Segue a noção causalidade linear, a seta do tempo. Na medicina mecanicista, esse conceito levou ao determinismo monocausal - um determinado fator produz um efeito predeterminado no corpo, segundo a equação básica da medicina oficial: agente específico – doença específica – química específica. Não existe um sistema vivo capaz de interagir, se adaptar, e de compensar, mas simplesmente um corpo mecânico/estrutural que recebe a ação pré determinada de um agente causal.

As manifestações clínicas, os sinais e sintomas observados, seriam consequências da ação do agente causal sobre o corpo do enfermo. Os sintomas seriam a voz da lesão, lesão essa provocada por um agente causal. Não admite serem os sintomas mobilizações do próprio organismo.

O sintoma é identificado como a ação do agente causal. Isso talvez explique a facilidade com que o médico prescreve drogas para suprimir sintomas. Pois ele pensa que em suprimindo sintomas, está também suprimindo a ação do agente causal. Acredita ainda que se cessam os sintomas, o processo doentio entrou em reversão, a doença deixou o corpo do enfermo. Aqui, agente causal e doença, se confundem, são faces da mesma moeda.

O agente causal (monocausal), os sintomas/sinais, e a doença ocupam o centro do pensamento médico, são os catalisadores da atenção médica. Diante do enfermo, o médico não vê um organismo vivo em dificuldades, mas sintomas e sinais que o permita firmar o nome da entidade doença (diagnose da doença), e dirigir toda a sua atenção para essa doença, criada pelo modelo de medicina centrada na doença. Como o pensamento médico oficial poderia ver indícios causais quando desvia seu olhar para uma abstração - a doença - e se esquece do organismo vivo, real?

Essas concepções médicas acima descritas são possíveis apenas quando se concebe o organismo humano como um sistema mecânico, linear, passivo e fechado. Pois se o considerarmos um sistema dinâmico com alta capacidade de adaptação, de compensação, de regulação, de busca permanente da ordem e da coerência, deveremos admitir que tais concepções soam delirantes, já que não falam do organismo real, mas reproduzem um lamentável reducionismo mecanicista, com trágicas consequências sobre o pensamento e a prática médicos.

O discurso médico dominante deveria entender que ciência, na medicina, não depende de estudos duplos cegos, mas da sustentação científica de teses e teorias.

O movimento recente de responsabilização do gen como agente monocausal - ou seja, a troca do germe pelo gen -  foi antecipado pela ideologia médica mecanicista. Mas, a cada tentativa fica mais patente a influência ambiental sobre a expressão genética (epigenética).

Não se tem dúvida de que o ser humano é um sistema aberto em permanente conexão com o ambiente, pois necessita do alimento, da energia, do oxigênio, que vêm do ambiente externo. O organismo humano mantém o seu meio interno constante (homeostase), mas necessita abrir-se para o ambiente externo. Sua capacidade adaptativa se dá em grande medida pela sua capacidade de compensação das sobrecargas. Um ser unicelular tem alta capacidade de adaptação frente as mudanças ambientais. O organismo humano, composto por trilhões de células/indivíduos, tem alta capacidade para compensar mudanças ambientais e as sobrecargas, mas não como o microrganismo que se reprograma completamente. O organismo complexo usa recursos e reservas para fazer a adaptação, e isso pode ter um custo elevado. De outro modo, pode haver um eficaz movimento adaptativo, em que se melhora a performance global do sistema. O exercício físico adequado é um tipo de stress que proporciona essa adaptação, mas, já temos hoje, uma disciplina médica - a Hormesis - em que se busca melhoras adaptativas através de estímulos tóxicos.

O que se tem observado no campo da Hormesis nos dá pistas importantes para uma terapêutica com características sistêmicas. Ou seja, as terapêuticas mais eficazes provavelmente são aquelas capazes de dar stress modulado no sistema, e o forçar na direção da mobilização global e da compensação/regulação. A ozonioterapia e as demais terapias bio-oxidativas se incluem nessa perspectiva.

O organismo humano é insuficientemente percebido pelo método mecanicista, centrado na observação da ação-reação imediatas. Raramente o organismo humano manifesta de imediato uma reação às sobrecargas. Quando assim o faz, na maioria das vezes, se deve a processos de desregulação prévios do sistema de defesa. De regra acontecem a adaptação e a compensação silenciosas.

Essa adaptação/compensação foi brilhantemente estudada por Hans Selye, na década de 60, através do que chamou de modelo adaptativo ao stress. O trabalho de Selye deveria ser o ponto de partida para uma medicina que valoriza a dinâmica adaptativa e compensatória do organismo. Entretanto, seus ensinamentos foram parcialmente incorporados apenas por uma sub-especialidade médica com interface com a psiquiatria, em que se valoriza, basicamente, o stress psicoemocional. Essa medicina ficou conhecida como medicina do stress. Selye nos mostrou que o organismo humano mantém o mesmo padrão de resposta adaptativa, seja qual for o tipo de stress: seja o stress emocional ou tóxico, o padrão de resposta adaptativa é o mesmo.

Selye se deteve, sobretudo, no estudo da adaptação do organismo ao stress agudo, rotulado por ele de reação de luta e fuga, em que há uma primeira fase aguda de choque, e a segunda - a contra-fase - seguida da fase de convalescência. Ele não se ateve ao que mais tarde viria a ser o padrão adaptativo dominante na sociedade moderna – a permanência na contra-fase de forma crônica. A contra-fase representa a dominância da ação da suprarrenal (cortisol) e da tireoide (tiroxina) no metabolismo celular, e o desvia para o catabolismo. O desvio catabólico revela um padrão adaptativo, que leva ao desgaste, à degeneração do organismo, e à consequente perda de estrutura e função. Esse desvio metabólico está na base do adoecimento crônico, e é mais uma pista para a superação da idiopatia na medicina.

Ao contrário da medicina lesional, a medicina funcional concebe os sintomas como dinâmicas funcionais adaptativas e regulatórias na tentativa de restabelecer a funcionalidade e coerência do sistema. Processo esse que não se iniciou no momento da emergência dos sintomas, mas cursou um longo caminho, na tentativa de dar conta do stress continuado e, agora, se manifesta como uma doença crônica e idiopática para o oficialismo.  É comum identificarmos um processo que se iniciou logo no primeiro ano de vida, e que só vem se manifestar, como doença lesional, 3 a 5 décadas após.

Grande parte das manifestações clínicas agudas da prática médica de hoje, são agudizações de processos crônicos, são verdadeiras tentativas de alívio das sobrecargas do sistema. Daí a importância de não bloquearmos esses processos, pois que isso tenderia a agravar a dinâmica de adoecimento crônico. Em vários estudos realizados em surtos de virose respiratória (resfriado comum e influenza), só se conseguiu isolar vírus em cerca de 10% das pessoas acometidas. Isso nos revela que grande parte dos acometidos pelo processo respiratório agudo, não tinha o vírus como o agente causal. Esses estudos não tiveram consequência na prática da medicina oficial, uma vez que essa medicina não tem recursos para incorporar tais achado, sem colocar em cheque a teoria fundamental  a sustentá-la, a teoria do germe.

Como já dissemos, a medicina oficial nasceu para dar conta das doenças bacterianas agudas, e se estabeleceu como uma medicina monocausal, localista, lesional, especializada na parte e altamente intervencionista. Nas últimas décadas, no entanto, a cena médica passou a ser dominada majoritariamente (90%) pelas doenças crônicas. Nas doenças crônicas não existe lesão, não há sede/local. Essas doenças são sistêmicas, acometem todo organismo, são multicausais, dependem do estilo de vida. Como se pode abordar a doença crônica com o instrumental da doença aguda? Essa simples pergunta revela que o próprio sistema de pensamento da medicina oficial produz a idiopatia.

É intrigante perceber como a medicina oficial não consegue dar sequer um primeiro passo na direção de uma abordagem clínica apropriada para a doença crônica. Pois que a aborda através dos fatores de risco, sem notar que está criando mais um artificialismo, e se afastando ainda mais do organismo em desequilíbrio funcional. Em realidade, não nos deveríamos surpreender com as dificuldades da medicina oficial diante da doença crônica, pois a doença crônica é o elefante que está em sua sala. Não consegue perceber o elefante, e passa a levantar hipóteses sobre aquele enorme ser. A superação desse bloqueio cognitivo não poderá vir da medicina oficial/lesional, a resposta deve ser buscada em outra instância de conhecimento, num conhecimento capaz de compreender o processo adaptativo que o organismo, diante do stress prolongado, trilha. Tal conhecimento encontra-se disponível no amplo acervo de conhecimento das medicinas de paradigma energéticofuncional.

A medicina funcional não está preocupada com nome de doença, com a sede ou com a lesão. Interessa-lhe o processo funcional que se manifesta, pois são as propriedades emergentes do sistema vivo, e não os aspectos de suas partes, que revelam a natureza do desequilíbrio. A adaptação e a compensação do organismo em processo de adoecimento crônico devem ser vistas como uma dinâmica emergente de um sistema vivo em stress prolongado. A doença crônica é o desvio adaptativo do organismo, para dar conta da exposição prolongada a fatores estressantes de várias ordens. Esse processo adaptativo guarda características individuais, e as consequências da ação de fatores estressantes costumam ocorrer muito tempo depois. Esse é um dos motivos porque a medicina oficial não entende doença crônica, uma vez que só valoriza a ação-reação imediatas. Processo adaptativo prolongado, o adoecimento crônico expressa uma série de dinâmicas adaptativas, que passam a ser o “novo” padrão funcional do organismo. Intervenções sobre tal adaptação são mal recebidas, mesmo que sejam feitas com substâncias naturais (efeito paradoxal). A adaptação do organismo em dinâmica crônica gera uma quadro de rigidez adaptativa, diferente da adaptação flexível e dinâmica do organismo sadio.

Nesse ponto, é fundamental a introdução de um conhecimento que não consta dos livros textos da medicina oficial, e sem o qual é impossível compreender a doença crônica: a teoria da matriz, a base da patologia humoral e relacional da medicina funcional.

A patologia da medicina oficial/lesional é chamada de patologia celular e estrutural. Origina-se da teoria celular de Virchow – Século XIX - que diz ser a doença a presença de uma lesão/morte celular num determinado tecido, e se esquece que antes da célula existe um terreno/matriz que viabiliza a função da célula. Sem a matriz, a célula é inviável, a matriz é o meio ambiente da célula, a interface matriz/célula (espaço transicional) é o espaço central no processo de regulação do sistema vivo multicelular.

O processo de sobrecarga do organismo se inicia pela matriz, com o acúmulo de homotoxinas e xenotoxinas, acidose, inflamação, ativação simpática. O avanço do processo tóxico leva inicialmente a quadros de hiper-reatividade (alergias), e mais adiante a quadros de baixa reatividade e bloqueio regulatório da matriz. Surgem os sintomas de desregulação do sistema nervoso autônomo (SNA; disautonomia), pois a matriz é intimamente relacionada com o SNA.

A grande maioria dos sintomas é a manifestação de disautonomia -  desregulação matriz/SNA. As dores, as oscilações de pressão arterial, as arritmias, as alterações de biorritmo, a enxaqueca, as alergias, as queixas vagas e mal definidas, compõem o grande quadro das disautonomias.

Lamentavelmente, a medicina oficial não consegue perceber esse processo contínuo de comprometimento do sistema funcional básico do organismo, pois só consegue perceber adoecimento quando vê a lesão.

A fibromialgia é um exemplo apropriado dessa situação. O diagnóstico dessa doença é realizado através da constatação da presença de certo número de pontos dolorosos num quadro de dor crônica, em que não se encontra causa orgânica (presença de lesão). Como é possível insistir nesse tipo de pensamento quantitativo linear, para dar conta de compreender um sistema complexo, não linear, com alto grau de compensação? Essa é uma agressão à realidade, uma atitude completamente anticientífica. Diante da ausência de lesão/imagem, o médico oficial levanta a causalidade psíquica, e diz ser a fibromialgia um problema psíquico. Inventa o termo depressão oculta e prescreve antidepressivos para milhões de pessoas.

A medicina oficial não consegue compreender a fibromialgia porque lhe falta o conceito de matriz. E isso é extensível à maioria das doenças crônicas, pois em todas está presente o bloqueio da matriz e a consequente disautonomia.

Um outro sistema, também desprezado pela medicina oficial, ocupa o centro do processo de adoecimento humano. Refiro-me ao sistema de defesa das mucosas. Como já foi dito, o organismo humano é um sistema fechado em termos organizacionais (meio interno constante, homeostasia), mas para viver necessita abrir-se ao ambiente externo, variável, e o faz através das mucosas. A mucosa respiratória realiza o transporte dos gases, possui uma trama fechada, pois as moléculas dos gases são pequenas, passam por difusão. Mas, necessitam de adequado sistema antioxidante (glutation), pois mantêm contato com o tóxico oxigênio (O2). A mucosa do intestino delgado, no entanto, possui uma trama mais aberta, e permite a passagem de moléculas maiores (alimentos). O organismo vivo “sabe” disso, e por essa razão existe  na superfície na mucosa o biofilme da flora intestinal simbiôntica, o muco, a IgA protetora. No espaço submucoso temos o sistema linfático da mucosa, que representa 80% do nosso sistema imune adquirido. Portanto, o chamado sistema de defesa da mucosa envolve flora intestinal – epitélio – sistema linfático submucoso.

O comprometimento do sistema de defesa da mucosa intestinal é um enorme risco para o organismo. A permeabilização da mucosa promove a sobrecarga tóxica do meio interno, comprometendo num primeiro momento a matriz e, em seguida, a célula.

A incorporação do sistema de defesa das mucosas nos permite entender o que está por trás das doenças crônicas, e da idiopatia da medicina oficial. O processo se inicia pela alteração no sistema de defesa da mucosa, avança para a sobrecarga da matriz e para as disautonomias, e mais adiante compromete a célula funcionalmente e, por último, a lesará, e produzirá uma lesão visível. Só nesse momento, nesse último estágio, a medicina oficial consegue perceber o adoecimento.

Para enxergar a dinâmica funcional do organismo o médico deveria primeiro romper com a concepção de ser o sintoma a voz da lesão. O sintoma é a ponta do iceberg, é geralmente um alarme do organismo exposto ao stress, em dificuldades, e com perda da capacidade regulatória. Em seguida, o médico deveria aplicar seus conhecimentos de fisiologia à clínica, para entender os movimentos de adaptação do organismo, tendo a consciência de ser o organismo humano um sistema altamente inteligente e informado, que trabalha incessantemente para manter/recuperar a ordem e a coerência, próprias da vida. Conforme nos ensina o professor Toru Abo (1947- ): “Toda resposta biológica tem algum propósito”.

Quando o pote transborda não é a última gota a responsável. O modelo etiopatogênico da doença crônica deveria seguir o modelo do pote. Os fatores estressantes se vão  acumulando ao longo do tempo, e dependendo da capacidade do organismo de os processar, e de se aliviar, o pote se mantém vazio ou transborda.

O brilhante matemático francês Henry Poincaré (1854-1912) disse: “A lógica e a matemática acurada são úteis para pequenas questões, mas nunca são suficientes para resolver os grandes problemas. Esses últimos sempre requerem algo extra; um input intuitivo da mente, percebido nas relações entre as coisas; a fixação no rigor é um obstáculo a esse processo”.

Além dos déficits cognitivos por falta de incorporação de conhecimentos oriundos de outros paradigmas, a medicina oficial agravou ainda mais esse quadro, ao aderir de forma radical ao método dos estudos duplos cegos randomizados (EDCRs). A adesão ao “rigor quantitativo” dos EDCRs, que a medicina oficial julga ser a melhor expressão da ciência médica, passou a ser uma espécie de tapa-olhos, que levou quase todos os médicos a olharem na mesma direção, e a chegarem à mesma conclusão -  a antítese do que deveria ser a perspectiva da ciência. Isso é fatal para a necessidade da medicina compreender o complexo processo do adoecimento atual, que exige um saber sensível, intuitivo, qualitativo.

Esse padrão de saber não é novo na história da medicina, pois sempre fez parte da tradição médica empírica. Prefiro chamá-lo de arte médica, para salientar ser a medicina, antes de tudo, uma doutrina construída pela arte médica, e não simplesmente a incorporação direta dos saberes das ciências auxiliares de laboratório e dos resultados dos EDCRs.

A Arte médica não deveria aceitar, não deveria incorporar, por exemplo, resultados de estudos que vão contra as leis da natureza e do próprio organismo. Esse princípio de ética profunda também faz parte da Arte médica

A dominância do discurso científico mecanicista (rigor matemático) na medicina, a tem desviado para o perigoso caminho do dogmatismo. Esse dogmatismo bloqueia completamente a arte médica, e impede o esclarecimento das causas da grande maioria do adoecimento atual, e o desenvolvimento de terapêuticas apropriadas.                                                                                               

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