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Barriga Grande e Fartura
A tradição alimentar da cultura portuguesa estimula o "comer
bastante para ficar forte", de modo que o abdomen mais volumoso passou
a ser sinal de sujeito bem nutrido. No Brasil, o significado foi mais além,
e acabou dando status de prosperidade.
Este sinal clínico (abdome globoso) é completamente desprezado
pela medicina, que não o valoriza. Aliás a medicina dá
muito pouca atenção ao exame das vísceras ôcas abdominais.
Quando o abdomen é examinado, o médico está orientado basicamente
para a avaliação das vísceras maciças, ou para surpreender
alguma tumoração.
Geralmente, está implícito que o abdomen fica protuso por flacidez
da musculatura abdominal, devido a falta de exercício físico e
ou obesidade.
No início do século, Dr. Mayr, um médico naturalista austríaco,
já havia chamado a atenção sobre a importância de
se valorizar o crescimento abdominal como indicativo de significativas alterações
digestivas. A partir dessa abordagem se criou o método conhecido hoje
como método Mayr (pronuncia Mer).
De uma maneira geral, não temos a noção do esforço
que organismo realiza para promover a digestão dos alimentos a cada refeição.
Há um forte direcionamento do fluxo sanguíneo para o abdomen.
Fígado e pâncreas produzem quantidades significativas de sucos
digestivos, etc.
Não é por acaso, que muitas mortes em pacientes cardíacos
ocorrem depois da refeição. Poderíamos dizer que o processo
da digestão de uma refeição como o almoço, corresponde
a um esforço semelhante a quatro quilômetros de caminhada.
A sobrecarga do sistema digestivo por hábitos e dieta inadequados, leva
a uma falência progressiva do sistema, evidenciado pelo acúmulo
alimentar ao nivel do intestino. Ou seja, o organismo perde a capacidade de
fazer a digestão enzimática (pâncreas) e deixa que o alimento
passe para o intestino, para ai sofrer a digestão fermentativa bacteriana.
A digestão enzimática é rapida e produz poucas escórias,
a digestão fermentativa bacteriana é lenta e produz grande quantidade
de gases e produtos tóxicos (disbiose).
Normalmente, o intestino funciona quando o bolo alimentar passa por ele. Em
seguida ele se esvazia e entra em repouso. Ou seja, não fica com nenhum
conteúdo em seu interior. Por essa razão os cerca de doze metros
de intestino cabem dentro da cavidade abdominal.
Quando o intestino passa a ser local de digestão fermentativa, há
um acúmulo de alimentos, líquidos e gases em toda as sua extensão,
promovendo, assim, um grande aumento do volume intestinal a pressionar a parede
abdominal.
Num primeiro momento, temos a chamada retenção de gases,
onde o abdomen fica globoso, distendido também no andar superior, como
uma bola insuflada. Com a evolução do desequilíbrio, as
alças intestinais ficam mais pesadas e pressionam o abdomen inferior
(abdomen em avental). Temos aí, o quadro de retenção
de gases e fezes.
É comum ouvir um grande comilão, com um abdomen volumoso, dizer
que tem ótima digestão, pois come qualquer coisa e nunca passa
mal. Ora, ele não passa mal porque já perdeu todos os reflexos
que levam uma pessoa a se sentir mal quando come em excesso, como os reflexos
gástricos de saciedade, etc.. Neste caso, o alimento passa direto pelo
estômago e duodeno e vai sofrer digestão fermentativa no lamaçal
que se tornou o intestino.
Aqui, os sinais de má digestão não são a náusea,
plenitude, vômitos, e sim a volumosa produção de gases,
auto-intoxicação, disbiose e abdomen volumoso. Apesar do intestino
poder funcionar diariamente (evacuação), ele o faz por transbordamento,
mantendo período superior a 48 horas de trânsito.
O teste do espinafre ou qualquer outra verdura verde escura pode ser usado para
avaliar a retenção. Procede-se da seguinte forma: dois dias antes
não ingirir nenhuma verdura; no dia do teste ingerir uma boa porção
de espinafre no almoço e notar o tempo que levará para ele aparecer
nas fezes (as fezes ficam verdes). Normalmente, este trânsito deve se
fazer em 18 horas, de modo que na evacuação do dia seguinte já
deverá estar sendo eliminado.
Os transtornos não ficam apenas ao nivel do abdomen. A pressão
abdominal restringe os movimentos do diafragma, e o indivíduo passa a
usar mais a musculatura torácica em substituição, o que
leva a grandes ampliações da caixa torácica com o aumento
do espaço morto pulmonar. Por outro lado, o peso abdominal leva à
compensação pela lordose da coluna lombar, e maior disfunção
da musculatura abdominal e do quadril.
Muitas vezes, o aumento abdominal dá uma falsa impressão de obesidade.
Na verdade essas pessoas não são tão obesas quanto parecem,
são sim portadoras de acentuado gráu de má digestão
e acúmulo de gases e fezes.
No Brasil, a questão do abdome volumoso é tão corriqueiro
entre os homens que passou a ser um coisa quase normal. Temos uma verdadeira
epidemia deste desequilíbrio digestivo.
A medicina oficial, que dá pouco destaque às questões acima
levantadas, chegou por vias transversas às consequências deste
desequilíbrio, quando relacionou o aumento do perímetro abdominal
com aumento do risco cardíaco. Na sua guerra santa ao colesterol, a medicina
oficial logo imputou a culpa à gordura abdominal.
A questão não é tão simples assim, a má digestão
dos barrigudos afeta toda a economia do organismo, sobrecarregando e intoxicando
todo o organismo. Se os médicos da medicina oficial abrirem os olhos
para além do órgão coração, poderão
notar que os estragos não ficam restritos ao coração.
O que se deve fazer?
Primeiro ter a consciência da importância do processo digestivo,
enquanto um processo dinâmico de trabalho e repouso. Mantendo refeições
regulares (o ideal são três refeições) e intervalos
também regulares.
As culturas orientais, pricipalmente a Japonesa, valorizam muito o ato de se
alimentar, mantendo postura de tranquilidade, relaxamento e concentração.
A nossa cultura tende a transformar a mesa em ponto de encontro e conversa com
alto grau de excitação. O pâncreas, o órgão
central do processo digestivo, é muito sensível à dinâmica
emocional, e frequentemente é afetado por este estilo de alimentação.
Sem falar na qualidade dos alimentos ingeridos, para se fazer uma boa digestão
é importante o relaxamento, a mastigação eficaz (em torno
de 25 mastigações por cada porção), usar a própria
saliva para fazer e deglutir o bolo, dispensando o uso de água e refrigerantes.
O ato da alimentação está tão alterado na nossa
cultura, que uma das consequências tem sido a atrofia das glândulas
salivares. Grande parte das pessoas, por desuso, não conseguem mais produzir
saliva suficiente para deglutir o alimento, tendo que empurrá-lo usando
líquidos. Muitas pessoas sequer mastigam, vão logo empurrando
o alimento com líquidos, chegando a ingerir quase um litro de liquido
às refeições. Não é preciso ter conhecimento
técnico para deduzir sobre as consequências deste processo.
Este quadro se agrava quando o líquido ingerido é um dos nossos
refrigerantes extremamente abundantes em açúcar (uma lata de coca-cola
possui pelo menos seis colheres de sopa cheias de açúcar). Isto
significa mais trabalho digestivo.
Devemos comer sempre atentos ao nosso reflexo de saciedade. Ou seja, estarmos
atentos quando atigimos o nosso limite. A cultura de comer tudo o que se põe
no prato não costuma respeitar este princípio, de modo que é
melhor colocarmos menos e depois repetir se for o caso, do que calcular visualmente
o quanto vamos comer.
Infelizmente, muitas pessoas já perderam o reflexo da saciedade e passam
a comer com os olhos.
A coisa não para por aqui. Existe muito mais o que falar. Mas o objetivo
maior desta informação é chamar a atenção
sobre um fato completamente banalizado pela nossa cultura, porém com
grande impacto na saúde das pessoas.
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